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Papelcartão do Brasil faz toda a diferença

Por Carlos Mariotti – Gerente de Política Industrial da Ibá Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, desafios climáticos e transformações imprevisíveis nas cadeias de suprimentos, a busca por parceiros comerciais confiáveis e estáveis nunca foi tão crucial. A resiliência das cadeias produtivas locais tornou-se um ativo estratégico. Para a indústria, não há mais […]
07/07/2025

Por Carlos Mariotti – Gerente de Política Industrial da Ibá

Em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, desafios climáticos e transformações imprevisíveis nas cadeias de suprimentos, a busca por parceiros comerciais confiáveis e estáveis nunca foi tão crucial. A resiliência das cadeias produtivas locais tornou-se um ativo estratégico. Para a indústria, não há mais espaço para a incerteza. As garantias de fornecimento, qualidade e, acima de tudo, de responsabilidade socioambiental têm valor ímpar. E é exatamente essa previsibilidade positiva que o setor brasileiro de árvores cultivadas vem construindo e consolidando, posicionando o Brasil como uma potência de soluções sustentáveis frente ao mundo.

Nossa indústria possui uma história robusta, alicerçada em mais de 10 milhões de hectares de árvores cultivadas, que se expandem majoritariamente sobre terras antes degradadas. Para além disso, o setor preserva 7 milhões de hectares de floretas nativas — uma área maior que o estado do Rio de Janeiro. Juntas, essas áreas abrigam mais de 8 mil espécies de animais e plantas, segundo levantamento da Ibá a partir do monitoramento da biodiversidade realizado pelas empresas do setor há décadas.

Toda essa prosperidade ambiental também se dá a partir de uma longa história de desenvolvimento de práticas de manejo voltadas à intensificação da produtividade e sustentabilidade, produzindo mais com menos e fazendo uso racional dos recursos naturais. As áreas produtivas do setor seguem o plantio em mosaico, que intercala árvores plantadas com a mata nativa — provendo uma gama de serviços ecossistêmicos e beneficiando as comunidades locais.

Essa base florestal 100% renovável e rastreável, certificada por respeitados órgãos internacionais como o FSC e o PEFC, é o berço de uma cadeia produtiva que gera mais de 2,6 milhões de empregos verdes e movimenta mais de R$ 260 bilhões, se destacando como uma das maiores e mais sustentáveis do planeta. Hoje, o setor fornece ao mercado global uma miríade de produtos biodegradáveis e recicláveis, entre celulose, papel, livros, fraldas, embalagens, utensílios como copos e canudos biodegradáveis, fibras para tecidos, painéis, pisos e muitos outros.

Talvez o exemplo mais emblemático do sucesso desse modelo, que une tecnologia, sustentabilidade e uma base industrial forte, seja o papelcartão. O aumento da demanda global por embalagens de papel e produtos de origem renovável colocou o produto entre os protagonistas da transição para uma economia de baixo carbono. Nesse sentido, o Brasil se consolidou como um dos maiores e mais qualificados fornecedores para o mercado nacional e internacional. E com uma carteira de investimentos de R$ 105 bilhões, essa é uma indústria que se expande e inova para fornecer produtos que substituem aqueles de origem fóssil.

Essa substituição, aliás, já é realidade visível. Copos de papel com barreiras biodegradáveis, que resistem à umidade sem utilizar plástico, estão se tornando alternativa principal àqueles fabricados com poliestireno. Bandejas de papelcartão, antes um desafio tecnológico, hoje acondicionam frutas, legumes e até alimentos congelados nos supermercados. Vemos também a inovação em soluções já consolidadas no dia a dia, como canudos de papel e embalagens para latas de bebidas que eliminam o uso de anéis plásticos, um conhecido poluente dos oceanos e que prejudica a vida marinha. Por trás dessas soluções, há intensa pesquisa para desenvolvimento de barreiras biológicas, novos vernizes e resinas de fontes renováveis que garantem bom desempenho e segurança alimentar.

Hoje, a produção nacional segue rigorosas regulamentações técnicas que garantem a qualidade do produto final, como a RDC 88, da Anvisa, que estabelece os critérios para materiais celulósicos em contato com alimentos. Essa é uma garantia de qualidade e segurança que protege as marcas e, principalmente, os consumidores. Afinal, associar-se a um material de procedência e conformidade duvidosas é um risco que poucos estão dispostos a correr na era do consumo consciente. Cabe ao mercado verificar a procedência e as certificações dos materiais que utilizam, assegurando que compartilham do mesmo nível de compromisso que a indústria nacional vem demonstrando ao longo das últimas décadas.

A vantagem do produto nacional também está nos impactos socioambientais do pós-uso. O Brasil possui um sistema de reciclagem consolidado e com um dos maiores índices do mundo —mais de 70% do papel para embalagens é recuperado. Essa circularidade da cadeia do papel, essencial na bioeconomia e que vem sendo construída junto à indústria brasileira, é ameaçada pela importação de papelcartão, a qual vem atrelada à importação indireta de aparas. Com isso, deixamos de produzir mais papel nacional e, consequentemente, de consumir as aparas do mercado brasileiro, impactando diretamente a renda de milhares de catadores e cooperativas que são a base da economia circular.

Recomenda-se que os “brand owners” zelem por sua reputação e exijam de seus fornecedores não apenas o cumprimento dos critérios técnicos e de desempenho para o papel e para a embalagem de seus produtos, mas também a comprovação clara da certificação de origem florestal e da cadeia de custódia de toda a produção e de sua responsabilidade social com a cadeia de reciclagem nacional.

Soma-se a esse efeito colateral a possibilidade de desvio de finalidade de papelcartão importado, que, por vezes, entra no Brasil com isenção fiscal para fins editoriais (papel imune), mas é utilizado na produção de embalagens. Essa prática não apenas gera concorrência desleal, mas também representa uma evasão fiscal que lesa o país e cria um desequilíbrio para toda a cadeia produtiva, incluindo gráficas e convertedores que atuam de forma correta. É frequente, inclusive, que tudo ocorra sem o conhecimento da própria marca, ou seja, dos “brand owners” — cujo nome estará presente em um papel que teve sua finalidade desviada.

O compromisso da indústria brasileira com o meio ambiente, a sociedade e uma governança responsável é inegociável e se reflete em um potencial exportador que alia sustentabilidade, produtividade e, por consequência, competitividade. Os contínuos investimentos em novas fábricas e máquinas de ponta, que figuram entre as maiores e mais modernas do planeta, são a prova da confiança do setor no futuro. Valorizar o papelcartão e toda a indústria de árvores nacional não é apenas uma decisão de negócios; trata-se de investimento na segurança, na previsibilidade e no futuro de uma economia mais verde e justa para o Brasil. É a escolha certa em um mundo marcado pela incerteza.

Publicado em: Revista O Papel

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