Dia das Florestas e Dia da Água
Por Camilla Marangon – Gerente de Sustentabilidade da Ibá
Comemoramos, nestes 21 e 22 de março, o Dia Internacional das Florestas e Árvores e o Dia Mundial da Água, respectivamente. A consecutividade pode ser vista como mera conveniência simbólica, mas nos oferece a oportunidade de refletir sobre a profunda sinergia entre as florestas, seus cursos d’água e a própria biodiversidade. Na caminhada rumo a um planeta mais saudável, são louváveis as iniciativas que respeitam as imbricadas relações ecossistêmicas e cuidam dos recursos hídricos e naturais.
Ao longo das últimas décadas, o setor brasileiro de árvores cultivadas vem afirmando esse espírito, a partir do entendimento de que produtividade deve andar de mãos dadas com sustentabilidade. Hoje, o setor já soma 10,2 milhões de hectares de árvores plantadas, área cuja expansão ocorre sobre terras já antropizadas e previamente degradadas, transformando positivamente essas paisagens.
Em estados mais severos, as áreas degradadas são desprovidas de cobertura vegetal e se tornam cada vez mais impermeáveis à chuva. Com isso, a água não tem tempo de penetrar no solo e abastecer os lençóis freáticos, escoando até os rios e levando consigo sedimentos que tornam os cursos d’água mais rasos e prejudicam a biodiversidade aquática a partir do processo de lixiviação. Ante a isso, o plantio de árvores, como é feito pelo setor, possibilita que a chuva seja amortecida pelas copas e troncos, facilitando sua penetração no solo e nos lençóis que abastecem os rios e tornam a terra fértil. Ainda, as árvores cultivadas absorvem e estocam carbono presente na atmosfera ao longo de seu crescimento — dando origem, posteriormente, a uma miríade de produtos biodegradáveis e de origem renovável.
A atenção ao uso responsável dos recursos hídricos também está presente logo no início da cadeia produtiva do setor: nos viveiros. Considerando que esta é uma indústria que planta 1,8 milhão de árvores por dia, a produção de mudas é uma etapa que vem passando por constantes aprimoramentos de processo e tecnologia. Práticas como captação de água da chuva e reuso já são consolidadas, visando a eficiência e a sustentabilidade das operações.
Quando as mudas vão para o campo, são plantadas em áreas estratégicas, em que a variedade escolhida das árvores é altamente adaptada ao clima e disponibilidade de água e nutrientes na região. Tais variedades foram desenvolvidas ao longo dos anos pelo setor a partir de muito investimento em ciência aplicada à sustentabilidade. Essa visão estratégica também está presente no manejo: a partir da técnica de mosaico, as áreas de plantio são integradas com a vegetação nativa, formando verdadeiros corredores ecológicos que contribuem com a regulação do ciclo da água nessas regiões.
Não só no cultivo de árvores o setor demonstra seu empenho no uso racional dos recursos hídricos: na etapa industrial os avanços obtidos nos últimos anos são impressionantes. Desde a década de 1970, a indústria de celulose diminuiu o uso de água em 75%. Da água que é captada pelo setor para os processos industriais, 80% retorna ao seu ponto de origem, os rios, após passar por estações de tratamento das empresas. Os produtos do setor retêm somente 0,3% dessa água e o restante evapora ao longo dos processos, retornando ao ciclo hidrológico.
Para garantir a preservação dos recursos hídricos, as empresas do setor vêm realizando um longo e assíduo monitoramento dos afluentes próximos às operações ou onde há captação. São dezenas de microbacias monitoradas em todo o país e que fornecem informações sobre o volume e propriedades da água. Em parceria com universidades e pesquisadores brasileiros, há projetos de monitoramento que já completaram três décadas, fornecendo uma trilha de dados que permite às empresas entender de forma precisa o impacto de suas atividades e das variáveis climáticas nesses rios. Trata-se de um trabalho de inteligência que guia decisões e estratégias do setor por meio de manejo adaptativo voltado à sustentabilidade.
Esse cuidado com a natureza é histórico e vem se tornando elemento central na caminhada para o futuro da indústria. Crescendo ano a ano, as áreas de mata nativa conservadas pelo setor já somam 6,91 milhões de hectares, uma extensão maior que o estado do Rio de Janeiro. Nessas áreas e nas de plantio estão presentes mais de 8 mil espécies de animais e plantas, além de nascentes essenciais para a manutenção dos afluentes nessas regiões.
Toda essa experiência na conservação da natureza foi constituída ao longo de décadas e hoje também se reflete em um novo perfil de iniciativas focadas exclusivamente na restauração florestal. Parte do setor, Biomas, Symbiosis, re.green, Mombak e Carbon2Nature se voltam à recuperação de milhões de hectares de mata nativa. Viabilizadas a partir da comercialização de créditos de carbono, essas empresas convergem algumas das soluções mais promissoras para a preservação ambiental em um contexto de aprofundamento da crise do clima.
Cada etapa da cadeia do setor, do plantio das árvores ao pós-uso dos produtos e passando pelos projetos de restauração, evidencia o compromisso com o manejo responsável da água e a sustentabilidade. Em momento marcado por múltiplas crises ambientais, a gestão consciente desses recursos reflete a compreensão de que a prosperidade humana anda de mãos dadas com a saúde dos ecossistemas. Nesse percurso, os ciclos que regem as florestas e as águas também são os que devem nortear as iniciativas que buscam integrar-se harmoniosamente à natureza.
Publicado em: Revista o Papel